Entrou pela porta mais distante da carruagem, e vi sorrisos de "Ah, tão lindo!" nas caras de mil nações que seguiam comigo no metro. Mas, eu cá, senti uma mágoa imensa e pensei se o cão era o mesmo.
O rapazinho que eu via nas ruas da cidade onde morava, é agora um jovem homem, o cão, não sei se será o mesmo, é possível, ou será igual...
Lembrei-me de o ver a ser batido, uma e outra vez, quando, exausto, largava da boca o cesto improvisado de garrafa pet cortada e trespassada por uma corda que fazia asa. Hoje, continuava triste, a manter a pose empoleirada e de equilíbrio difícil, em cima do acordeão tocado pelo outrora menino, tão triste como ele, moldado à pedincha, sem aparência de ter sido algo mais do que isso alguma vez: sustento de família que vive à custa do próximo.
Juro que só não lhe perguntei, porque os seus passos se esticaram, correndo de uma plataforma para outra, para tornar, de novo, a entrar numa carruagem igual e tocar acordes iguais, com o cão a fazer posse igual:
alguma vez pensaste em viver de outra maneira?
Só descansei um pouco quando vi o cão no chão, a andar, de caminho sabido entre plataformas - temia que tivesse algo partido, de saber que era batido para obedecer às posses de amolece-corações dos pacóvios que dão a esmola...
Doeu, dói sempre.
Ver um pobre animal ser maltratado,
ver uma potencial pessoa ser um ente sem sentido e sem futuro e sem valor...
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